DIA DO JORNALISTA: Quando uma imagem (infelizmente) vale mais que mil palavras

Por Rosane Steinbrenner

Neste dia 07 de abril, cenas cabais de agressão à manifestantes que protestavam contra a terceirização na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, registradas por repórteres fotográficos, exigem, neste Dia do Jornalista, que se reflita sobre o Jornalismo que vem sendo praticado pela chamada grande imprensa no país.

As imagens são fortes e falam por si. Em dado momento, um grupo de policiais cercam um manifestante com camisa e bandeira vermelha da CUT, Central Única dos Trabalhadores, e desfecham seguidos golpes de cassetete no homem que tenta se proteger, encolhido, já no chão. Termina carregado, sangrando, com a ajuda de um colega, que encara e invade com seu olhar a lente do fotógrafo. Um instantâneo de tristeza e incredulidade diante da cena.

Mas se as imagens revelam sem palavras uma violência desmedida, os textos das matérias nos portais dos principais jornais do país buscam, com maior ou menor intensidade, neutralizar ou naturalizar a violência utilizada pelas forças policiais neste dia em Brasília, afinal tratava-se de um enfrentamento com “meliantes”, conforme afirmação de um policial ouvido.  O efeito dos relatos construídos pelos repórteres e editados nas redações é em geral a indicação de culpa pelo confronto, que deixou oito feridos, inclusive dois deputados, a apenas um dos lados, o dos manifestantes. Estratégia finamente sintonizada com a do chefe daquela casa de leis e de representantes do povo. Ouvido pela imprensa sobre o episódio, o presidente da Câmara dos Deputados, Luis Eduardo Cunha, promete inclusive punir deputados que, segundo ele, teriam incitado a multidão a agredir. ”Que vai ter sanção de suspensão, vai”, disse ao repórter da Folha de São Paulo.

Ironia, senão escárnio, pensar que Luis Eduardo Cunha, melhor do que ninguém, deveria saberdos problemas e prejuízos que a terceirização pode trazer aos trabalhadores, como propõeo Projeto de Lei 4330, que estava previsto para ser votado nesta terça-feira e que regulamenta contratos de terceirização no mercado de trabalho para empresa privadas e públicas. Incensado pela mídia mais conservadora como um dos homens mais poderosos na atualidade do país, ele mesmo reconhecidamente um dos parlamentares mais conservadores do Congresso Nacional – autor da proposta de criação de um Dia do Orgulho Heterossexual – Luis Eduardo Cunha, radialista da primeira e maior rede de emissoras evangélicas (Melodia) no Rio de Janeiro, é casado com a jornalista Claudia Cordeiro Cruz, que processou e ganhou uma ação trabalhista contra a Rede Globo, justamente por ter trabalhado como terceirizada por cerca de 12 anos, de 1989 a 2001, como apresentadora de telejornais da emissora. A esposa do deputado conseguiu provar na justiça que nunca teve sua carteira de trabalho assinada, pois a emissora condicionou a prestação de serviços à formação de uma empresa pela qual a jornalista forneceria a sua própria mão-de-obra. Em julho de 2000, após ter adquirido uma doença ocupacional, um pólipo na faringe, a repórter foi informada que seu contrato não seria renovado.  Após a dispensa, a jornalista teve que arcar com os custos do tratamento e de cirurgia. Em 2008, o ministro do Tribunal Regional do Trabalho (RJ), Horácio Senna Pires, relator do caso, concluiu que o esquema “se tratava de típica fraude ao contrato de trabalho, caracterizada pela imposição feita pela Globo para que a jornalista constituísse pessoa jurídica com o objetivo de burlar a relação de emprego” (Portal Terra).

A “pejotização”, como é conhecida a terceirização, é a forma mais comum de precarização do trabalho em grandes empresas de vários setores da economia. Entre as grandes empresas jornalísticas do país cresce como praga. Jornalistas são contratados mediante a abertura de empresas individuais – que eles são obrigados a abrir – como Pessoa Jurídica (PJ). Perdem garantias trabalhistas, direito aos acordos coletivos da categoria, aumentam as pressões sobre os profissionais.

Assim, nesse Dia do Jornalista, faço coro com todos os manifestantes deste 07 de abril: NÃO à TERCEIRIZAÇÃO ! NÃO À PEJOTIZAÇÃO!

SIM AO BOM JORNALISMO, salvo hoje pela lente dos fotógrafos.

Sobre o assunto, ver a dissertação A Precarização da Atividade Jornalística e o Avanço da Pejotização, de Cládio Marcos da Silva (UNB, 2014) http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/15710/1/2014_CladioMarcosdaSilva.pdf

Dra. Rosane Steinbrenner

Direção da Faculdade de Comunicação

Universidade Federal do Pará – UFPA

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